sexta-feira, abril 21, 2017

Academia

Já não consigo aguentar sem ripostar a opinião douta e definitiva dos grandes académicos que sabem muito bem o que é e o que não é arte. Aliás, Arte, pois que aquilo que tão extraordinárias personagens sabem, conhecem e preservam, o Conhecimento, a Beleza, estas coisas escrevem-se sempre com uma letra Maiúscula a abrir a palavra, não vá algum ignorante desrespeitar a coisa.

É frequente perder-me nos discursos labirínticos destes doutores e destas doutoras que pretendem balizar o fenómeno da criação artística, que lhe definem as fronteiras e montam postos alfandegários onde alguém nos perguntará, lá do alto do seu posto: tem algo a declarar?

E, caso declaremos algo, de imediato nos sujeitamos ao julgamento do douto alfandegário e às sanções que ele considerar convenientes. A maior parte das vezes somos obrigados a permanecer do lado de cá, não nos é reconhecido valor suficiente para atravessar a fronteira; a nossa ignorância, a nossa rudeza e falta de sensibilidade impedem-nos de apreciar o que os Grandes Académicos guardam do lado de lá.

Ok. Fiquem lá com essa merda para vocês. Espero que, pelo menos, sejam felizes.

quarta-feira, abril 19, 2017

F......

A sensação não me tranquiliza, antes pelo contrário.

Tenho a sensação de que estamos a construir uma sociedade onde um gajo entra por uma porta e é cidadão e sai por outra transformado em consumidor. Os direitos e deveres são alterados ao longo deste estranho processo de transmutação.

É todo um novo Contrato Social que nos orienta a partir daqui. Consumir implica uma atitude que não se coaduna lá muito bem com a ideia de solidariedade que importava observar quando éramos cidadãos de uma sociedade democrática. O Consumidor é um predador.

Tenho a sensação de que, nesta sociedade, há mais espaço para a intolerância e o que o fascismo apresenta muitos rostos. A maior parte deles sorridentes. Os fascistas aprenderam a sorrir sem parecer que estão apenas a rilhar os dentes.

Em que parte do caminho é que nos enganámos? Quando foi que desobedecemos a nossa mãe e saímos do caminho no meio da floresta? Quando foi que metemos conversa com a merda do Lobo Mau?

Tenho a sensação de que esta sociedade de consumidores acabará por rebentar e com ela rebentará uma parte considerável do planeta (se não todo o planeta).

Tenho a sensação que estamos f......

terça-feira, abril 18, 2017

Ir ao Porto e regressar

Num país como este as grandes distâncias são sempre pequenas.

quinta-feira, abril 13, 2017

A velha questão volta a atacar

Quando o discurso do artista se enrola em volta daquilo que lhe interessa (a ele, enquanto indivíduo) qual a possibilidade de o resultado da sua reflexão e do seu trabalho vir a interessar, também, o espectador?

Há uma questão que me dança constantemente dentro da cabeça: qual o futuro de um objecto artístico que não convoque uma narrativa? Sim, eu sei, esta pergunta interessa-me a mim, enquanto indivíduo, qual a possibilidade ela vir a interessar-te também a ti, paciente leitor?

Seja como for, estou para aqui a escrevinhar estas palavras como se estivesse a berrar para um desfiladeiro e nada mais me preocupa do que reflectir simplesmente.

terça-feira, abril 11, 2017

La vida loca



As viagens de finalistas ao sul de Espanha funcionam como uma espécie de ritual contemporâneo de passagem à idade adulta da juventude lusitana. Tal como noutras épocas e noutras culturas, os nossos jovens são colocados à prova numa situação em que, muitos deles, estão pela primeira vez entregues a si próprios, longe do ambiente familiar, confrontados com a sua capacidade de responder a preceito a questões desafiantes. Talvez aquilo a que vamos assistindo nestas viagens, ano após ano, seja um reflexo da sociedade que construímos. O excesso, a boçalidade, a ausência de espírito crítico, a vontade de explodir, de ultrapassar os limites, sejamos justos, não são exclusivos desta geração, sempre fizeram parte da condição da adolescência. Apenas têm crescido de intensidade.

Desde que se tornaram um alvo para as campanhas publicitárias que excitam a vontade de consumir, os jovens são bombardeados com mensagens cada vez mais excessivas. O apelo à plenitude absoluta do prazer, a associação do prazer a situações extremas, são factores corriqueiros no quotidiano mediático, há uma idolatria da loucura que potencia comportamentos esquizoides. A coisa vai-se entranhando num crescendo ansioso, as expectativas da viagem de finalistas vão sendo colocadas em patamares altíssimos, a necessidade de viver tudo o que ainda não foi vivido no curto período de uma semana faz com que os filtros sociais sejam desligados; aqueles dias têm de valer a pena, têm de ser experienciados como se não houvesse amanhã!

Depois há a amplificação mediática (outra característica do tempo actual) e as notícias são marteladas em ritmo de hip-hop, a toda a hora, uma e outra vez, com especial ênfase na espectacularidade alarmista. Os meios de comunicação comportam-se como aqueles jovens: pintam manchetes com frases bombásticas, atiram os factos para dentro de serviços noticiosos que os mastigam como se fossem chiclete, todos os jornais se transformam em correios da manhã. Dentro de alguns dias tudo será esquecido, outros escândalos irão ocupar o espaço mediático, os jovens regressarão à vida académica, agora pressionados pela aproximação dos exames nacionais. Se tudo tiver corrido bem, as memórias destes dias loucos irão contribuir para que se entreguem com maior afinco ao estudo. Afinal de contas agora são adultos, já cumpriram o ritual.

sábado, março 25, 2017

Crocodile Bambi (6)

Vomitar é um impulso higiénico que a nossa alma adquire ou não. Depende do grau de lucidez que o teu corpo mantém quando é desligado do cérebro. Imagino que os meus músculos, os meus ossos, as minhas entranhas, tenham vontade própria e se reúnam em plenário de cada vez que o álcool irrompe tomando de assalto o castelo do meu crânio. Tentam isolar a bebedeira, tomam as rédeas do cavalo estúpido em que me transformo, a gatinhar (transformo-me em gato? Não.), a andar em quatro patas pelo passeio seboso, como se procurasse um pasto que não existe, tão bêbado como um autocarro abandonado à beira do passeio. Penso em coisas sem sentido, como poderia ser de outro modo? O cérebro não tem hipóteses, o corpo é, agora, um animal autónomo e triste que lhe pede, por favor, que reconsidere: cérebro, por favor, volta para mim, não me deixes, não me abandones, tenho medo quando fico sozinho.
Não sei se isto é verdade, não sei se as coisas funcionam assim pois este pensamento é registado muito depois de ter vivido os acontecimentos daquela fatídica noite e nunca mais voltei a embebedar-me daquele modo. Nunca mais voltei a vomitar. Nunca mais o meu corpo se desligou do cérebro que me serve de morada. Desde aquela noite tenho vivido uma vida tristemente sóbria, uma vida de uma lucidez arrepiante.

quarta-feira, março 22, 2017

Crocodile Bambi (5)

- Aquilo não foi normal. O Sr. António estava a convencer um cliente a pagar a conta. Era um tipo franzino com ar de intelectual, não sei se está a ver? Um tipo daqueles que não sabem beber sem ficarem a cair de bêbados. O Sr. António estava com dificuldades em fazer ver ao betinho que as contas são sagradas e resolveu recorrer à sua Maria, uma tranca simpática que costumava guardar por trás do balcão. Só queria explicar-lhe melhor a sua ideia, está a perceber? Mas aquilo não foi normal. O betinho estava todo cagado, a patinar nos calcanhares, agarrado a uma mesa, imagino que a ver a vida a andar para trás, quando a gaja que veio com ele pareceu que caía do tecto ou o caraças. De onde veio aquela fúria? Nem deu para perceber. O Sr. António vinha de tranca levantada, o betinho vomitou-lhe em cima o que fez com que ele hesitasse no gesto de lhe arriar e foi então que a tipa foi como se tivesse entrado pelo Sr. António dentro: deu-lhe um soco nas trombas com tanta força que até lhe desapareceu o punho nas fuças do homem ou o caraças! O Sr. António largou a Maria e foi dar com o lombo num banco. Esguichava sangue do nariz às golfadas. O betinho desequilibrou-se (acho que escorregou no próprio vómito) e foi ao chão, deve ter sido aí que se magoou porque a gaja é que tratou da saúde ao Sr. António. Atirou-se para cima do homem ao pontapé e ao soco com tanta rapidez de gestos que era impossível perceber bem com que partes do corpo é que o ia aviando. Parecia uma cena de efeitos especiais ou de desenhos animados, não sei se está a ver? O Sr. António nunca mais foi o mesmo. Mudou de cara e mudou de atitude. Tornou-se mais meiguinho para a clientela e agora arrasta a perna esquerda.
- E a gaja? E o betinho?
- Depois de deixar o Sr. António feito num oito, a gaja foi para o betinho que estava apoiado num cotovelo a olhar para o chão como se tivesse perdido alguma coisa. Acho que estava apenas a tentar focar o olhar, a ordenar ideias. Tinha parado de vomitar mas não parecia muito melhor. Branco! A tipa ria-se a bandeiras despegadas. Nem se baixou para ajudar o outro, até lhe deu um pontapé no cu! E depois outro, conduziu-o até à porta, aos pontapés no cu e o gajo de gatas, a parar de vez em quando para vomitar mais um bocadinho, uma cena do caraças! Eu e os meus parceiros ficámos um bocado enxofrados, não sabíamos o que fazer. O Mauro tinha pousado as cartas, o Diocleciano continuava a olhar para as que tinha não mão como se o jogo nunca tivesse parado. Eu o Zé António lá acabámos por nos levantar quando o gajo e a gaja saíram porta fora, ele de rojo, ela atrás, lá no alto dos sapatos. Acho que foi com os saltos dos sapatos que abriu aqueles buracos todos nas pernas do Sr. António. Ajudámos o homem a levantar-se, devagarinho para não se desconjuntar, não sei se está a ver. Fui em quem chamou a ambulância.
- Ok. Obrigado pelo seu depoimento. Foi muito útil.